Sou admiradora de créditos de filmes, tanto finais quanto os de abertura. Já falei sobre o final de Quem Quer ser um Milionário e agora trago minha abertura favorita: Durval Discos, que começa de forma brilhante, mostrando um subúrbio paulista verossímil. Os créditos tiram partido da abundância de informação textual que existe num lugar como aquele e integra-se perfeitamente ao cenário. Há um jogo estimulante de reconhecimento, onde o espectador é desafiado a descobrir o que foi inserido na paisagem e o que faz parte dela. A integração entre a cena de abertura e o texto é perfeita, não existem quebras.
Antes de Durval Discos, minha abertura favorita era a de Quase Famosos, exatamente por essa integração da cena ao texto, mas enfraquece no final, deixando acontecer uma quebra. Os créditos foram divididos em duas partes: uma com os atores (é dessa que eu gosto) e outra com os créditos mais técnicos, onde o texto é sobreposto à cena inicial, sem novidade. Já o filme brasileiro abre mão dos créditos técnicos no início e mantém a integridade e a fluidez: Olé!
O título desse texto poderia ser "Porque vou ao cinema — cont." mas eu queria enfatizar o nome desse precioso filme, que vai passar na mostra de cinema catalão, na Caixa Cultural do Rio, sexta-feira próxima às 19h. Recomendo fortemente, mas esse não é um filme comum. Não se pode assistí-lo com a expectativa de uma boa história ou com o anseio de tirar dele algum ensinamento para a vida. Também não é um filme de adrenalina, muito pelo contrário, são os 84 minutos mais longos que já vi no cinema.
Na Cidade de Sylvia quase não tem diálogos, também não tem história. Sua narrativa é puramente visual e o extremo silêncio sutiliza as sensações provenientes da sonoridade. A lentidão em que tudo se passa é um convite à pausa, à contemplação... quanta beleza há na cidade, nas pessoas, no som da rua, no compasso do caminhar. A cidade de Sylvia é belíssima, as mulheres são encantadoras... não importa para onde a câmera olhe, há sempre uma imagem perfeita sendo capturada. Obviamente, esse olhar é idealizado e concretizado apenas na tela do cinema. Mas não importa... o que posso levar desse olhar para a Av. Rio Branco? Quando digo que desejo experimentar outros olhares vendo filmes, nisso cabem aqueles que são puramente estéticos, pra mim, isso é entretenimento, prazer e aprendizado.
A Mostra de Cinema Catalão começou nessa terça e conta com a presença do diretor José Luiz Guerin. Confira a programação e um trecho de En la ciudade de Sylvia abaixo.
Terça (01.06), às 16h30m: “Cravan vs. Cravan”, de Isaki Lacuesta (2002). Às 18h30m: “Inisfree”, de José Luiz Guerín (1990). Sessão apresentada pelo diretor.
Quarta (02.06), às 17h: “Tren de sombras”, de José Luis Guerín (Espanha, 1998). Às 19h: “Más allá del espejo”, de Joaquim Jordà (Espanha, 2006).
Quinta (03.06), às 16h30m: “La terra habitada”, de Anna Sanmartí (2009). Às 18h30m: “En construcción”, de José Luís Guerín (2001). Sessão apresentada pelo diretor.
Sexta (04.06), às 17h: “El Sastre”, de Óscar Pérez (2007); “Salve Melilla”, de Oscar Pérez (2006). Às 19h: "En La Ciudade de Sylvia", de José Luís Guerín (2007).
Sábado (05.06), às 15h30m: “De niños”, de Joaquin Jordà (2003). Às 19h: “Unas fotos en la ciudad de Sylvia”, de José Luis Guerín (2007). Sessão apresentada pelo diretor, seguida de debate com o diretor e Cao Guimarães.
Domingo (06.06), às 15h30m: “Ich bin Enric Marco”, de Santiago Fillol e Lucas Vermal (2009). Às 17h30m: “Paralelo 10”, de Andres Duque (2005); “Ivan Z”, de Andres Duque (2004). Às 19h30m: “La leyenda del tiempo”, de Isaki Lacuesta (2006).
Os filmes não são recomendado para menores de 16 anos. Os ingresso custam R$ 4,00 a inteira. O vídeo abaixo ficou cortado, por isso recomento sua visualização no próprio You Tube: clique aqui.
Na gênesis desse blog escrevi sobre a função de entorpecimento que a arte e, em especial, o cinema exercia na minha vida. Quase dois anos se passaram e hoje percebo algumas outras sutilezas dessa função. Percebi que se o cinema fosse apenas um entorpecente, daria preferência aos filmes de puro entretenimento, coisa que não acontece.
Procurei saber porque gosto de filmes tidos como pesados, monótonos, entediantes, etc. Será que busco uma diferenciação? Será que quero me sentir superior? Quero parecer culta? Não descarto nehuma dessas possibilidades, mas andei consultando sinceramente meu coração e senti que o principal motivo, aquele que me leva às salas de cinema toda semana, é a busca pelo novo, pelo diferente. Quero experimentar outros olhares, novas sensações. Desejo aprender e descobrir o mundo, como uma criança. O cinema é o meu brinquedo, o meu livro.
Estou repensando minha cinefilia e entre as reflexões está a manutenção desse blog. Há 19 meses no ar, escrevendo quase toda semana, confesso que estou cansada. Não sei se é cansaço ou apenas uma fase de recolhimento. Acontece que entrei numa onda de muito forte: cinema às quartas, blogue às quartas e sábado um curso de história da arte com exibição de filmes. Acabou pesando para uma simples distração cinéfila. Trabalho, cuido de casa, tenho quatro gatos, família, amigos, blogues, exercito o corpo e está ficando difícil conciliar.
Não digo que acabou, mas por enquanto, estou me desobrigando da periodicidade...
O título desse texto não é original, foi extraído de uma das primeiras frases do filme 500 dias com ela: "Esta não é uma história de amor. Esta é uma história sobre amor". Disseram-me que este era um romance diferente e intrigante, que te fazia pensar. Assisti acreditando até o último minuto que algo me surpreenderia, mas pelo contrário, vi muitos clichês – inclusive o do homem apaixonado (por quem todas as mulheres reais vão suspirar) e uma mulher objetiva (bem do jeito que os homens gostariam – Será?). Inverter o padrão do comportamento masculino e feminino não é novidade... dizer que se você não encontrou seu amor é porque não observa bem a paisagem... também não. Colocar as mulheres como mais maduras que os homens... risível. Enfim, minhas expectativas sobre o que seria dito sobre o amor foram muito maiores e a frustração foi certa, como ilustrado de forma inteligente na cena da imagem abaixo. A virtude do filme está nas qualidades técnicas: montagem, direção de arte e trilha sonora, que são ótimas.
Em contrapartida, outro homem encontra outra mulher...
Depois de me decepcionar com 500 dias com ela, caiu em minhas mãos o filme Apenas uma vez – Once, no original. Uma deliciosa surpresa pela forma delicada que consegue falar sobre o amor e nos fazer refletir. Um filme leve, com uma história inteligente e simples.
Então, fica a dica: se você não gostou de 500 dias com ela, assista Apenas uma vez. E se você gostou do primeiro, vai gostar do segundo também.
Se quiser sentir o clima do filme, assista um trecho no vídeo abaixo e de quebra conheça a música que valeu um Oscar, por melhor canção original, composta pelos atores que também são músicos e foram responsáveis por toda trilha sonora.
Estou muito feliz por estar fazendo um curso de cinema e história da arte no Caixa Cultural!!! Funciona assim: cada sábado uma aula sobre um período histórico da arte, cada palestrante escolhe um filme para ser exibido antes da aula.
O primeiro filme foi 2001 Uma Odisséia no Espaço e o tema era arte rupestre. O segundo foi Desprezo, do Godard, seguido pela palestra sobre arte grega. No sábado em que o filme do Kubrick foi exibido, não pude ficar para a aula, mas me disseram que foi ótima, com o palestrante falando sobre as pinturas pré-históricas e a contemporânea arte de rua.
A aula sobre arte grega eu assisti e gostei bastante, o palestrante Ivair Reinaldim conseguiu traçar um panorama claro e amplo sobre o tema. É delicioso parar um pouco e visitar o passado, a aurora da civilização ocidental. Mas também é uma pena que por conta do número limitado de 16 encontros, muitas culturas acabem ficando de fora da mostra, como a arte egípicia, chinesa e persa, só para citar alguns exemplos que lembrei agora e considero interessantes para esse momento do curso.
Enfim, essa é uma excelente oportunidade de aprender e se divertir ao mesmo tempo! Quem quiser participar, basta tentar uma vaga através do e-mail (curso@modooperante.com.br) ou tentar a sorte no dia. Eu tentei a sorte e consegui desde o primeiro encontro, agora já estou inscrita. Mais informações você encontra no blog da mostra. O próximo filme será Gladiador e o tema é arte romana. Nos vemos lá! = ;-)
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P.S.: A foto que ilustra esse texto foi retirada do blog do evento.
Obscuras são as raízes do Nazismo, assim como as cenas de A Fita Branca.
Imersos na escuridão de uma sociedade anterior à luz elétrica, no início da segunda década do século passado, uma comunidade rural alemã é retratada de forma belíssima. A ausência de cores reforça a sisudez de um povoado onde a alegria estava restrita a uma festa por ano, após a colheita. Esse foi um dos berços do nazismo e assim procura-se entender sua origem.
A rigidez na educação, a violência doméstica e a ausência total de afeto teriam levado os alemãs a construírem campos de concentração? A pergunta é parecida com: a pobreza gera a violência nas cidades? E segue-se: apenas a sociedade alemã era rígida daquela forma? Todos os pobres são violentos? Não, claro que não! Cada um reage de uma forma... a secura e a violência mostrada no filme alemão não é muito distante daquela vista em Abril Despedaçado, que se passa na mesma época no sertão brasileiro. Estou certa de que a educação dos meus avós não foi muito diferente também. Acho que é a mesma questão do filme A Onda, somos tão diferentes daqueles alemães?
Então, por que a Alemanha? Creio que a pergunta ainda não foi respondida. Talvez porque a explicação não seja simples nem confortável. Talvez a resposta nos leve a ver que não temos controle disso e que outros eventos como esse podem surgir — isso se acreditamos que não existem mais. Talvez a melhor pergunta seja apenas "por quê?". E ainda devemos satanizar os alemães, que viraram o Judas do século XX?
Foi com essas questões que saí do cinema no dia em que vi A Fita Branca. E agora uma amiga me mostrou esse texto, que expressa de forma embasada aquilo que eu apenas sinto. É longo, mas vale a leitura. Para quem ainda não viu o filme e prefere se preservar, o texto conta algumas cenas e vale a pena ver o filme antes de ler.
Reflexões à parte, o filme é uma obra de arte. Vale a pena ser visto no cinema.
Para não dizer que não falei de romances nesse mês de março, esse texto é dedicado às noivas que eu amo... as noivas de Tim Burton. Dentre elas, a que mais me impressionou foi a Mrs. Lovett, de Sweeney Todd, ela que sabe o que quer e luta por seu amado. Apesar da brutalidade da vida que viviam, Mrs. Lovett é uma sonhadora e faz planos, como qualquer mortal do sexo feminino. Uma prova disso é o trecho em que ela abre seu coração ao amado barbeiro, que atentamente compartilha seus sonhos.
Outro casal muito romântico é Sally e Jack de O Estranho Mundo de Jack. Uma noiva atenciosa que faz de tudo para auxiliar seu amado, mesmo sem a autorização dele. Eu penso assim: somos todos uns monstrinhos, mas tudo que buscamos é amar e ser amado. Então, viva o romance!
E para provar que eu acredito no amor... deixo vocês com uma cena memorável de Clube da Luta (é spoiler) onde "Jack" diz para Marla que ela entrou na vida dele numa época complicada, mas que agora ele está bem e que é para ela confiar nele, que tudo ficará bem. E eu confio nele!! Apesar do desfecho da cena...
Mesmo nessa confusão, sei que apenas quando não sabemos bem o que fazer é que temos oportunidade de transformar... nesse ponto sou esperançosa.
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P.S.: passei duas semanas apanhando nesse blog pra conseguir adicionar os vídeos... que surra! Isso é para eu explicar a ausência da semana passada e o atraso nessa. Mas eu queria muito colocar minhas noivinhas amadas! E agora já sei como fazer essa coisa funcionar.
Diário de bordo das minhas viagens cinematográficas. Sempre às quartas-feiras, você lê nesse blog divagações feitas a partir de algum filme, sem a pretensão de criticá-los.