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quarta-feira, 16 de junho de 2010

Créditos de abertura favoritos

Sou admiradora de créditos de filmes, tanto finais quanto os de abertura. Já falei sobre o final de Quem Quer ser um Milionário e agora trago minha abertura favorita: Durval Discos, que começa de forma brilhante, mostrando um subúrbio paulista verossímil. Os créditos tiram partido da abundância de informação textual que existe num lugar como aquele e integra-se perfeitamente ao cenário. Há um jogo estimulante de reconhecimento, onde o espectador é desafiado a descobrir o que foi inserido na paisagem e o que faz parte dela. A integração entre a cena de abertura e o texto é perfeita, não existem quebras.


Antes de Durval Discos, minha abertura favorita era a de Quase Famosos, exatamente por essa integração da cena ao texto, mas enfraquece no final, deixando acontecer uma quebra. Os créditos foram divididos em duas partes: uma com os atores (é dessa que eu gosto) e outra com os créditos mais técnicos, onde o texto é sobreposto à cena inicial, sem novidade. Já o filme brasileiro abre mão dos créditos técnicos no início e mantém a integridade e a fluidez: Olé!


quarta-feira, 2 de junho de 2010

Na Cidade de Sylvia

O título desse texto poderia ser "Porque vou ao cinema — cont." mas eu queria enfatizar o nome desse precioso filme, que vai passar na mostra de cinema catalão, na Caixa Cultural do Rio, sexta-feira próxima às 19h. Recomendo fortemente, mas esse não é um filme comum. Não se pode assistí-lo com a expectativa de uma boa história ou com o anseio de tirar dele algum ensinamento para a vida. Também não é um filme de adrenalina, muito pelo contrário, são os 84 minutos mais longos que já vi no cinema.



Na Cidade de Sylvia quase não tem diálogos, também não tem história. Sua narrativa é puramente visual e o extremo silêncio sutiliza as sensações provenientes da sonoridade. A lentidão em que tudo se passa é um convite à pausa, à contemplação... quanta beleza há na cidade, nas pessoas, no som da rua, no compasso do caminhar. A cidade de Sylvia é belíssima, as mulheres são encantadoras... não importa para onde a câmera olhe, há sempre uma imagem perfeita sendo capturada. Obviamente, esse olhar é idealizado e concretizado apenas na tela do cinema. Mas não importa... o que posso levar desse olhar para a Av. Rio Branco? Quando digo que desejo experimentar outros olhares vendo filmes, nisso cabem aqueles que são puramente estéticos, pra mim, isso é entretenimento, prazer e aprendizado.



A Mostra de Cinema Catalão começou nessa terça e conta com a presença do diretor José Luiz Guerin. Confira a programação e um trecho de En la ciudade de Sylvia abaixo.

Terça (01.06),
às 16h30m: “Cravan vs. Cravan”, de Isaki Lacuesta (2002).
Às 18h30m: “Inisfree”, de José Luiz Guerín (1990). Sessão apresentada pelo diretor.


Quarta (02.06),
às 17h: “Tren de sombras”, de José Luis Guerín (Espanha, 1998).
Às 19h: “Más allá del espejo”, de Joaquim Jordà (Espanha, 2006).


Quinta (03.06),
às 16h30m: “La terra habitada”, de Anna Sanmartí (2009).
Às 18h30m: “En construcción”, de José Luís Guerín (2001).
Sessão apresentada pelo diretor.


Sexta (04.06),
às 17h: “El Sastre”, de Óscar Pérez (2007); “Salve Melilla”, de Oscar Pérez (2006).
Às 19h: "En La Ciudade de Sylvia", de José Luís Guerín (2007).

Sábado (05.06),
às 15h30m: “De niños”, de Joaquin Jordà (2003).
Às 19h: “Unas fotos en la ciudad de Sylvia”, de José Luis Guerín (2007).
Sessão apresentada pelo diretor, seguida de debate com o diretor e Cao Guimarães.

Domingo (06.06),
às 15h30m: “Ich bin Enric Marco”, de Santiago Fillol e Lucas Vermal (2009).
Às 17h30m: “Paralelo 10”, de Andres Duque (2005); “Ivan Z”, de Andres Duque (2004).
Às 19h30m: “La leyenda del tiempo”, de Isaki Lacuesta (2006).

Os filmes não são recomendado para menores de 16 anos. Os ingresso custam R$ 4,00 a inteira.
O vídeo abaixo ficou cortado, por isso recomento sua visualização no próprio You Tube: clique aqui.


quarta-feira, 31 de março de 2010

Mais sombras que luz...


Obscuras são as raízes do Nazismo, assim como as cenas de A Fita Branca.

Imersos na escuridão de uma sociedade anterior à luz elétrica, no início da segunda década do século passado, uma comunidade rural alemã é retratada de forma belíssima. A ausência de cores reforça a sisudez de um povoado onde a alegria estava restrita a uma festa por ano, após a colheita. Esse foi um dos berços do nazismo e assim procura-se entender sua origem. 

A rigidez na educação, a violência doméstica e a ausência total de afeto teriam levado os alemãs a construírem campos de concentração? A pergunta é parecida com: a pobreza gera a violência nas cidades? E segue-se: apenas a sociedade alemã era rígida daquela forma? Todos os pobres são violentos? Não, claro que não! Cada um reage de uma forma... a secura e a violência mostrada no filme alemão não é muito distante daquela vista em Abril Despedaçado, que se passa na mesma época no sertão brasileiro. Estou certa de que a educação dos meus avós não foi muito diferente também. Acho que é a mesma questão do filme A Onda, somos tão diferentes daqueles alemães?

Então, por que a Alemanha? Creio que a pergunta ainda não foi respondida. Talvez porque a explicação não seja simples nem confortável. Talvez a resposta nos leve a ver que não temos controle disso e que outros eventos como esse podem surgir — isso se acreditamos que não existem mais. Talvez a melhor pergunta seja apenas "por quê?". E ainda devemos satanizar os alemães, que viraram o Judas do século XX?

Foi com essas questões que saí do cinema no dia em que vi A Fita Branca. E agora uma amiga me mostrou esse texto, que expressa de forma embasada aquilo que eu apenas sinto. É longo, mas vale a leitura. Para quem ainda não viu o filme e prefere se preservar, o texto conta algumas cenas e vale a pena ver o filme antes de ler.

Reflexões à parte, o filme é uma obra de arte. Vale a pena ser visto no cinema.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Romances




Para não dizer que não falei de romances nesse mês de março, esse texto é dedicado às noivas que eu amo... as noivas de Tim Burton. Dentre elas, a que mais me impressionou foi a Mrs. Lovett, de Sweeney Todd, ela que sabe o que quer e luta por seu amado. Apesar da brutalidade da vida que viviam, Mrs. Lovett é uma sonhadora e faz planos, como qualquer mortal do sexo feminino. Uma prova disso é o trecho em que ela abre seu coração ao amado barbeiro, que atentamente compartilha seus sonhos.




Outro casal muito romântico é Sally e Jack de O Estranho Mundo de Jack. Uma noiva atenciosa que faz de tudo para auxiliar seu amado, mesmo sem a autorização dele. Eu penso assim: somos todos uns monstrinhos, mas tudo que buscamos é amar e ser amado. Então, viva o romance!




E para provar que eu acredito no amor... deixo vocês com uma cena memorável de Clube da Luta (é spoiler) onde "Jack" diz para Marla que ela entrou na vida dele numa época complicada, mas que agora ele está bem e que é para ela confiar nele, que tudo ficará bem. E eu confio nele!! Apesar do desfecho da cena...




Mesmo nessa confusão, sei que apenas quando não sabemos bem o que fazer é que temos oportunidade de transformar... nesse ponto sou esperançosa.

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P.S.: passei duas semanas apanhando nesse blog pra conseguir adicionar os vídeos... que surra! Isso é para eu explicar a ausência da semana passada e o atraso nessa. Mas eu queria muito colocar minhas noivinhas amadas! E agora já sei como fazer essa coisa funcionar.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Como transformar vida em poesia

Um dos prazeres que mais prezo é o que podemos sentir por um ofício. Amo meu trabalho e não consigo me imaginar sem essa paixão. Posso me ver amando outro ofício, mas jamais trabalhar sem amor. Não importa a profissão: educador, pesquisador, jornalista, engenheiro... designer ou pintor. A alegria que surge do fazer transforma a vida em poesia.

Moça com brinco de pérola tocou nesse ponto e me encantou, na verdade me extasiou com a sensibilidade com que mostra o prazer que a arte pode proporcionar. A paixão pela luz, pelas cores, composição, tintas... e pelas formas naturalmente belas. O amor compartilhado pelos protagonistas é o envolvimento que ambos tinham com o ofício da pintura. E essa é uma linda história de amor. (Confira um trecho dessa bela paixão aqui).





Foi impossível não me encantar pelo azul e amarelo utilizado por Vermeer ao retratar a moça. Não apenas pelo efeito que causa na pintura, mas também pelo entusiasmo mostrado entre a aquisição do pigmento e sua fixação na tela. Que alquimia deliciosa!

Para mim o filme é uma pintura em movimento, não por ser um vídeo e ter uma fotografia exuberante, mas pela forma como exibe o possível processo de criação de uma pintura que transcendeu no tempo.

O trajeto desenhado pelo tempo entre a pintura e o filme também é bonito: um homem retrata uma jovem com paixão, três séculos depois uma mulher se encanta pela obra e desconhecendo a história da moça, decide criá-la através da literatura. Finalmente, o livro é adaptado ao cinema.

Sugestão: baixe o papel de parede do quadro aqui, e apaixone-se se for capaz.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Na Natureza Selvagem


Há momentos em que o lado negro, duro e cruel da vida nos é revelado de forma impactante. Essa dureza é a percepção de que a realidade difere daquilo que idealizamos. Ou que desejávamos coisas impossíveis, como as crianças que acreditam que o mundo tem que ser do jeito delas e pra elas. Sair desse egocentrismo é dolorido porque julgamos ruim o que não é do nosso jeito, temos dificuldades de aceitar a vida e as pessoas como elas são. “Narciso acha feio o que não é espelho”.


A realidade não é boa ou má, ela apenas é. Lutamos tanto por liberdade de expressão, liberdade de ser o que se é, mas oferecemos pouca liberdade aos outros. Assim somos: egoístas e egocêntricos. Perceber isso é doloroso, sentimos vergonha, nos condenamos, nos punimos e na maioria das vezes preferimos fingir que não vemos nada, que a realidade pode ser do jeito que sonhamos e maquiamos a verdade.

Mas algumas vezes decidimos encarar a dor ou simplesmente não conseguimos fugir dela. Nesses momentos a ruptura se faz necessária. Rompemos com os outros, com as circunstâncias e, principalmente, com nós mesmos – essa é a parte mais difícil.

No Tarô há a carta do Louco ou Bobo, um herói jovem que parte sozinho para uma jornada desconhecida, mas parte com muito entusiasmo. Ele não sabe onde vai, o que encontrará e como ficará, mas sente que precisa seguir essa viagem. É um andarilho, errante e despreparado. Sua bagagem é ínfima e sua percepção é desprezada por ele mesmo. Ele vai caminhar por todas as cartas e passará por muitas situações até encontrar-se relizado. Na Natureza Selvagem é pra mim a história desse Louco que habita nossos corações e que precisamos encarnar uma vez ou outra.

Quando partimos, não percebemos o rompimento interno, achamos que estamos sempre quebrando com o outro e mantendo fidelidade às nossas crenças... mas aos poucos, vemos que as coisas não são bem assim, que também erramos, que também somos fracos. Algumas horas – quando passamos pela carta da Torre – sentimos o chão desabando e não sabemos em que acreditar. Nessas horas nos afastamos do mundo em graus variados e Christopher McCandless foi ao extremo para encontrar a sua natureza selvagem.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Aos que amam... uma advertência



"Dicen que a traves de las palabras el dolor se hace mas tangible, que podemos mirarlo como a una criatura oscura (...) Pero yo siempre he creido que el dolor que no encuentra palabras para ser expresado es el mas cruel, mas hondo, el mas injusto."

Assim começa o filme de Isabel Coixet, A los que aman. Se as palavras deixam os sentimentos mais palpáveis, não os define. Existe um verbo mais indefinido que amar? Apesar de ser conjugado por todos com displicente intimidade. Verbo irregular. Eu te amo. Tu não me amas. Ele finge que ama. Nós não sabemos amar. Vós amais demais. Eles se amam.

O amor é uma das mais engenhosas invenções da humanidade. Verbo versátil, pode ser usado em diversas ocasiões para amenizar e expressar coisas que não compreendemos direito: "Tanto más ajena a nosotros cuanto más cerca la sentimos".

Seguimos inventando e conjugando o amor. E algumas vezes o fazemos de forma egoísta: olhamos ao redor e elegemos "O Amado", a quem dedicacaremos a vida. Se "O Amado" não nos corresponde ou muda de idéia antes de nós, culpamos ele de todas as nossas desgraças, de todas as dores que não conseguimos expressar em palavras.

Desta forma, morremos de amor ou vivemos uma vida enferma, sem nunca perceber que amar não é uma doença, que basta curar o egoísmo e permitir que o outro se vá. Eu sei, nada é tão simples assim...

"Era un tiempo en el que miraba al futuro con más esperanza que miedo” – o tempo do amor.

Acontece que muitas vezes, por medo, não acreditamos que outros amores virão e nos apegamos ao que não possuímos. Assim, passamos a vida... "Mirando las nubes y buscando la pregunta a una respuesta que no conozco"... buscando a pergunta de uma resposta que não conhecemos.



P.S.: Este foi o primeiro filme em espanhol que vi, sem legenda.
Hoy tengo prueba de español, la conclusión del primer nivel. Ahora puedo escribir y ablar un poco.¡Estoy mui contenta con esto!

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Postar ou não postar?










Semana passada foi bem legal o Anima Mundi. Vi poucas sessões, mas valeram cada centavo. A que mais gostei foi a apresentação do estúdio de animação Laika, sobre o filme Coraline.

Mas o fato é que hoje me sinto como o protagonista do curta que ganhou o prêmio de melhor roteiro, Skhizein, de Jeremy Clapin. Estou à 1,98m de mim mesma e, portanto, não quero falar nada. Até a próxima semana!

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Honra, Orgulho e Preconceito


Semana passada vi os posts do Pablo Vilaça sobre trilha sonora e fiquei viajando nisso. Fiz uma lista dos filmes de trilhas marcantes para mim, mas ainda não é hora de falar dela. No entanto, fiquei com isso na cabeça. Hoje, casualmente, resolvi ouvir música no meu mp3 do celular e lá estava a trilha sonora do Orgulho e Preconceito, que a minha irmã me deu e eu ainda não tinha ouvido. Passei o dia ouvindo no modo contínuo, no ônibus, no trabalho... e havia sempre uma música que me fazia parar o que estava fazendo para conferir o título: Darcy's Letter. É linda e toca num momento especial do filme, na segunda cena que eu mais amo.

O filme é lindo, tem uma fotografia belíssima e cenas sensacionais. Hoje, depois do trabalho, passei na casa da minha irmã e revimos algumas cenas, depois eu vi mais algumas em casa e poderia fazer uma seleção de belos movimentos, mas não encontrei nada imediato no YouTube, então, ficarei devendo.

Honra
2.Sentimento de dignidade própria que leva o indivíduo a procurar merecer e manter a consideração geral; pundonor, brio (dic. Aurélio).


A história do filme, adaptação do livro homônimo de Jane Austen, me fala de honra e dignidade. Ter uma pitada de orgulho é fundamental para manter o respeito e preconceito é um mal que demonstra excesso de orgulho. Entre ambos está a honra. Oscilamos entre o necessário e o demasiado, um desses equilíbrios delicados que a vida possui. Fiquei pensando que nos dias atuais a honra não é coisa que valha muito e não temos como experimentar o significado dela no século XVIII, quando o livro foi escrito. Creio que substituimos ela pelo respeito à individualidade. E acho que dá para pensar nesse orgulho necessário como o amor-próprio, sendo o preconceito como seu excesso, quando nos tornamos a medida para todos e julgamos o outro a partir de nós.

Assim, quando se nega um pedido que nos favoreceria mas fere nossa auto-estima, isso reforça a dignidade ou autenticidade que temos.

Minhas irmãs dizem que eu vejo coisas nos filmes que não estão lá, tudo bem, estão aqui. É pra isso que serve esse blog. E foi essa a minha interpretação de Orgulho e Preconceito.

Confiram a música que me marcou hoje nesse link.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Folga

Hoje estou de folga e folgada, por isso venho no final do dia dizer que não vou falar de filme nenhum! Mas vou deixar um link que recebi hoje: top 50 dos anos 30, na opinião do blogueiro. Olhando a lista dele, percecebi que quase não vi filmes da década de 30. Apenas ...E o vento levou e O mágico de oz estão na minha memória.

O primeiro é aquele que vi umas três vezes na infância e adolescência no Supercine, dividido em duas partes... O segundo vi, também na infância, mas revi há pouco tempo e me surpreende que seja de 1939. É um filme atemporal e muito bem feito. Impressionante.

De O mágico de Oz, uma imagem é muito marcante pra mim: a perna da Bruxa Má do Leste esmagada pela casa. Os sapatinhos que Dorothy ganhou sempre estiveram no meu imaginário, volta e meia compro um. Então deixo pra vocês quatro imagens: a original do filme, um dos sapatos usados nas filmagens, um ensaio fotográfico que gostei e um descanso de portas genial!










Acabei escrevendo, viu!

quarta-feira, 8 de abril de 2009










— A senhora sabe montar torneira?

— Não, minha filha, a gente vai inventado.

Talvez as palavras sejam um pouco diferente, mas essa é a idéia. Este diálogo acontece no filme O Banheiro do Papa e me tocou bastante porque acho que sempre preciso aprender mais alguma coisa, ler mais um livro, fazer um curso, uma pós, um MBA, sei lá... falta sempre algo para que eu meta a cara no mundo e faça.

Esse simples diálogo me remeteu à verdade: não falta nada, basta ir inventando. A vida precisa ser criada. É fazendo que se aprende – dito popular. Se a prosperidade não chegou àquele lugar esquecido do Uruguai, não foi por falta de esforço, inteligência e criatividade de seu povo.

Tudo bem, se por um lado o diálogo mostra o empreendedorismo das pessoas, por outro expõe o despreparo das pessoas, a falta de conhecimento. E nisso entraria todo o meu desejo de saber mais. Mas vi naqueles personagens uma coragem – oriunda da necessidade de sobrevivência – que não encontro.

E o filme me falou dessas pernas que pedalam mais do que podem, que superam seus limites, correndo o risco da perda, mas se lançam adiante. Não posso reclamar das minhas pernas. Tenho até me arriscado bastante, mas preciso dosar conhecimento e investir na inventividade.

“Risco é a chance de dar certo, não a chance de dar errado.” Amyr Klink

Aquilo que deu errado foi só uma etapa no caminho do acerto.

A intenção dos diretores foi falar da ingenuidade gerada pela pobreza e suas consequências – veja no YouTube –, talvez uma advertência acerca dos sonhos, mas para mim bateu o contrário, coisas da arte.


Fora esse meu transe, a fotografia do filme é linda, a inserção de imagem documetal é de uma sutileza perfeita e faz um duo com as lágrimas que escorrem no rosto da menina ao ver seu pai na TV. O que se passaria depois daquilo, pareceu-me que ela também despertaria de suas ilusões...

Quero terminar esse texto com uma frase da crítica do Janot, que além de ter feito um título ótimo, também fechou com chave de ouro: “em sua via crucis, Beto atravessa a multidão de fiéis carregando nos ombros, ao invés da cruz, um vaso sanitário.”

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

O fabuloso destino...


















O tempo passa, a criança cresce... mas volta e meia ainda sonhamos com algum fabuloso destino, não muito diferente de Amelie Poulain. Feito criança, idealizamos. Muitas vezes nos frustramos, na maioria delas fugimos de nosso destino. Este filme nos aponta o caminho para o conto de fadas realizar-se: sonhar é fundamental, mas a realização depende do quanto vivemos no presente.

“Viver é melhor que sonhar”

Passado e futuro são frutos da mente. Nossas lembranças são fragmentos do vivido, as idealizações são esboços do que virá. Só o presente é real, só ele é capaz de nos proporcionar felicidade, nele está o corpo, nele há prazer.

Se o passado já foi e o futuro é uma ilusão, pra onde estamos indo?
“Estamos indo para o presente”

Precisamos não deixar o bonde passar, devemos embarcar no trem fantasma, mesmo com um medo danado. Porque O fabuloso destino de Amelie Poulain bateu na porta dela, mas isso raramente acontece.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

O gosto do chá


Saborear a vida nos pequenos detalhes. Respeitar as direnças de cada ser, observá-los como uma requintada e preciosa obra de arte. Contemplação do dia-a-dia, sua beleza e conflitos. O cotidiano simples, sem grandes acontecimentos, mas com muita poesia, carinho e cuidado. Assim vivia a família retratada em O gosto do chá. Cada um em seu universo particular, seu problema, encontrando sua solução, vencendo obstáculos. Não se espera nada do outro. Calma, com alma. Simplicidade. A cerimônia do chá refletina na vida familiar.

“Cada um com o seu cada um” dizia uma amiga minha, por volta dos meus vinte anos. Passado muito tempo, ainda sinto dificuldades em praticar e percebo que não importa a idade, sexo, grau de instrução, nacionalidade... todos temos essa dificuldade.

Compreender personalidades mais fechadas, menos expansivas é difícil. Alegria é sorrir e abraçar todo mundo. Amar é contato. Mas existem diversas formas de toque e afeto. A expansividade é um bom esconderijo pra falta de profundidade nas relações. Vivemos assim, afastados. A família do filme não se abraça, não se beija, mas se respeita e se ama.

Profundidade. Algo só é dito e feito quando há consistência. Sem superfialidades, medita, estuda, investiga, amadurece. Quando o pensamento já não cabe mais em si, faz-se.

Tempo.

A rotina tem seu encanto, crítica de Eduardo Valente.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

X-life

"Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento" Clarice Lispector

Vivemos e tentanmos compreender nosso significado. Desconfiamos de diversas coisas que não conseguimos provar. Relatamos a vida de forma inconclusiva, não importa a idade, o sexo, localização e classe social. Por mais firme que seja a ciência nesses dias insanos, por mais avançada que seja a sociedade, o máximo que conseguimos fazer é querer acreditar.

Cremos em experimentos, cálculos, lógicas, filosofias, religiões... O que mais me atraiu na série foi e a certeza do incerto. A ciência não é soberana, soberano é o caos. Ela não encerra todas as respostas, é apenas um conjunto de perguntas, algumas respondidas, a maioria não. Na época em que conheci Arquivo X, em seu sexto ano, eu havia deixado recentemente uma carreira na área de saúde para me dedicar à ciência inexata da arte. Haviam perguntas demais na minha cabeça, a maior parte sem resposta. Compreender a vida através da ciência era insuficiente. Lembro-me de uma noite de chuva, em que observava a luz, o balanço das árvores, a água... um amigo me perguntou: “sabe porque acontece isso?”. Referia-se a algum fenômeno natural muito bonito, não lembro qual. Sei que ouvi uma explicação e pensei que aquilo não tinha o menor significado pra mim. O importante era estar ali e apreciar o momento.

Eu via Arquivo X não com interesse em compreender a pseudo-explicação científica para fatos inexplicáveis e irreais. Pra mim, era só um trampolim para o prazer de imaginar que as coisas são bem diferentes do que nossos sentidos captam e a mente processa. Nós somos insignificantes. A verdade está sempre lá fora. Inatingível. Não há o que se fazer para encontrá-la.

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P.S.: "Quando o filósofo alemão Friedrich Nietzsche afirmou que não há fatos, só interpretações, não poderia imaginar que poucas décadas depois seria confirmado por um matemático." Carla Rodrigues. Vale a pena conferir o texto na íntegra: http://carlarodrigues.uol.com.br/index.php/570

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Batismo de Sangue



“O céu e a terra não são bondosos
Tratam os dez mil seres como cães de palha”


Tao Te Ching, cap 5

O mistério continua.

A história se entrelaça...
Quatro de abril de 1968, Rogério Duarte é preso ao tentar ir à missa de sétimo dia de Edson Luís.
Quatro de setembro de 1969, sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick. Entre seus participantes, Fernando Gabeira e Carlos Marighella.
Ainda em 1969, Frei Tito, entre outros padres dominicanos, é preso em operação que visava a morte de Carlos Marighella. No início de 70 ele é torturado sob o comando do delegado Sérgio Paranhos Fleury. Em 71 é libertado com mais 14 presos políticos, em troca da libertação do embaixador suíço Giovani Enrico Bucher, sequestro mostrado na adocicada série “Anos Rebeldes”.

... a minha história
16 de abril de 2007 com muita dor e sofrimento fui balizada durante a pré-estréia do filme “Batismo de Sangue”. Sábado passado, 25 de outubro de 2008, terminei de assistir a série “Anos Rebeldes”, tão importante para minhas irmãs durante a adolescência. Domingo votei em Gabeira. Agora leio “Tropicaos”, de Rogério Duarte e minha pergunta se revela em seu texto caótico:

“Eu e o Ronaldo fomos escolhidos, os únicos entre vinte milhões de padres, artistas, favelados. Por isso será dado um lugar especial para nós na história. (...). Mas eu quero que ninguém se esqueça do recado: Da próxima vez serão outros. É preciso exterminar os 20 milhões.”

Sempre tive muito receio de ver filmes sobre a tortura na ditadura. Sou muito sensível à cenas violentas. Mas, às vezes, também é importante sentir a profundidade da ferida no corpo da nossa pátria, mãe gentil...

E por mais que o filme me desse uma noção da dor, sei que não posso sentir 10% do que realmente foi... Li o depoimento de um dos atores (acho que do Léo Quintão) dizendo que nas filmagens ele sabia que quando quisesse, podia pedir para parar, o que não acontecia na realidade. Essa percepção é muito forte...

Sofri muito durante a exibição. Quando os créditos do filme começaram a subir, a platéia começou a aplaudir e eu me recusei a isso. Estava com uma dor tão profunda, que parecia que se eu aplaudisse, estaria aplaudindo os atos de violência assistidos.

Foi preciso deixar passar TODOS os créditos para que eu me sentisse aplaudindo o diretor, os atores, toda produção e personagens reais, presentes na exibição. Depois tive vontade de abraçar todo mundo, num gesto de solidariedade.

Saí do Odeon pensando em quais seriam os violentados do momento presente (Os tais 20 milhões).

Foi difícil... mas imprescindível.